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Celebrações e Problemas da Psicologia Humanista

Eugene T. Gendlin, Ph.D.
University of Chicago

Celebrations and Problems of Humanistic Psychology
The Humanistic Psychologist, Vol 20. Nos. 2 and 3, pp. 447-460
Copyright 1992 Division 32, American Psychological Association

Tradução:
Prof. Ms. João Carlos Caselli Messias

Resumo

Carl Rogers

A necessidade de novos conceitos

Grupos de Encontro

A necessidade de Novas Instituições

A falta de ambientes para Formação Humanista

Não estamos nos reproduzindo

Inovação e diversidade em terapia estão se tornando ilegais

Referências Bibliográficas

Resumo

O artigo celebra a história e vitórias da Psicologia Humanista e também considera as tarefas futuras, especialmente o problema de que a Psicologia Humanista talvez não esteja se perpetuando na próxima geração.

Recordo-me do dia, nos anos cinqüenta, quando Abe Maslow acabara de apresentar seu trabalho sobre as "Peak Experiences" (Experiências Culminantes). Como eu era um jovem estudante, me aproximei depois da palestra para falar com ele. Expressei meu entusiasmo e admiração pelo que havia sido dito. Ele me responde, dizendo: "não é uma pena que este trabalho jamais venha a ser publicado?" Surpreso, lhe perguntei por que não. Ele me disse: "Não pode ser publicado. Nada desse tipo pode ser publicado”. Explicou-me que esse tipo de coisas não se adapta aos preconceitos dos jornais e do campo em geral.

Neste texto celebramos quão errada estava essa previsão. O referido artigo (de 1957) é hoje um clássico, reimpresso inúmeras vezes. Porém o que, todavia resta verificar, é se tenhamos mudado as condições subjacentes que o desencorajavam tanto.

A Psicologia Humanista se iniciou a partir de reuniões que aconteciam em lugar e horário próprios, aproveitando a ocasião das convenções anuais da Associação Americana de Psicologia, a APA. Naqueles anos havia psicólogos suficientes para encher apenas uma sala de tamanho médio. O grupo foi crescendo progressivamente até vir a organizar suas próprias convenções, por vezes maiores do que as da APA, mas ainda anteriores e separadas destas. Por que ainda sempre separadas? Esta é parte do problema que quero discutir. A Psicologia Humanista e seus resultados experimentais estão ainda muito separados do restante do campo da psicologia e psicoterapia.

Coloquei nas mãos de Maslow um texto de minha própria autoria a respeito de algo similar: aqueles momentos na terapia em que repentinamente há uma percepção mais clara. O mundo parece vibrantemente definido, como se as janelas tivessem acabado de serem lavadas - uma pessoa vê as mesmas coisas de antes, mas com quanta diferença! Eu escrevi que "em tais momentos a experiência é imensamente melhor do que todos os significados do conjunto de percepções que se têm”.

Parecia-me (e ainda parece) que o que realmente importa não é o conteúdo, nem as formas e definições, mas a maneira e a qualidade da experienciação em curso.

Posteriormente pude conhecer mais Abraham Maslow, mas outros autores deste volume o conheceram melhor[1]. A Psicologia Humanista teve muitas fontes. Posso contribuir com algo a respeito de duas delas: Carl Rogers e os Grupos de Encontro.

Carl Rogers

Fui treinado por Carl Rogers e seu grupo (John Shlien, Jack Butler, Don Grummond e outros) e trabalhei junto a ele por onze anos. Rogers pensava que a saúde ideal consistia na ausência de bloqueios, o funcionamento desimpedido de cada aspecto da experiência em relação com todos os demais. Nos anos 50 ele escreveu um artigo sobre "A Pessoa em Funcionamento Pleno". O texto foi aceito, mas o editor insistiu na inserção de um parágrafo seu, no início, explicando sua discordância. Rogers retirou o artigo. Esta e outras experiências me levaram a iniciar uma nova revista, Psicoterapia: Teoria, Pesquisa e Prática em 1963. Publiquei o texto de Rogers no nosso primeiro volume.

Rogers foi contrário a praticamente tudo o que parecia conhecido no campo da psicoterapia. Ele modificou o papel do terapeuta, que não deveria impor suas interpretações. (Qualquer pessoa pode pensar em duas ou mais interpretações das coisas humanas). Já não se pensava mais em "bons" terapeutas que olhavam para seus pacientes "doentes" de cima para baixo. O paciente deixava de ser um objeto passivo de "tratamento". Rogers mudou o próprio termo "paciente" para "cliente". Eliminou o modelo médico e tirou o novo termo do campo do Direito. O advogado é um especialista e um ponto de apoio, mas não quem toma as decisões que concernem à vida do cliente. Os clientes foram convidados a ir a fundo em suas próprias experiências. O terapeuta estava à disposição para ouvir e partilhar cada nuance da experiência dos clientes. Vou discorrer mais a respeito de quão diferente é compreender e acompanhar alguém desta forma. Rogers eliminou o divã. Isso era tão incomum que um manual daquela época dedicou uma de suas poucas figuras a uma foto de duas pessoas sentadas separadas por uma mesa. Tratava-se de uma figura da Terapia Centrada no Cliente! Ele eliminou o diagnóstico, a história do paciente, a tomada de notas durante a sessão, o distanciamento clínico, e todas as frias atitudes clássicas. Alguém que se graduava através de seus programas, se tornava um novo tipo de psicólogo. Rogers criou um ponto de partida completamente renovado. Isso requereu uma imensa coragem.

Inicialmente eu não conhecia o campo muito bem. Eu não sabia o quão completamente diferente era o ponto de partida de Rogers e que longa e persistente barreira à comunicação esta diferença implica em nosso campo. Eu quero enfatizar quão drasticamente os pressupostos de Rogers diferiam dos pressupostos comuns da época. A maior parte das teorias em nosso campo admite que toda a razão e todos os valores dos seres humanos vêm do externo, da sociedade e da cultura. Os animais têm interações bastante complexas entre eles, mas se afirma que isso se deve a (pouco compreendidos) "instintos". Uma vez que se supõe que os humanos não os têm, todos os significados e valores devem ser impostos a nós a partir do meio externo. Essas são as suposições subjacentes sobre as quais ainda se constroem a maioria dos conceitos teóricos.

Rogers pressupõe, em lugar disso, que a experiência organísmica de um ser humano é uma fonte interna de direção da vida, da capacidade de criar sentido e valores.

Isso levou a infinitos mal-entendidos a respeito de Rogers. Ele enfatizava a escuta, mas por que ouvir clientes confusos? Eles não vêm para a terapia por haver algo errado consigo? Rogers dizia que a direção dos valores era desenvolvida a partir do mundo interno, mas outros terapeutas pensavam que não podiam atuar sem definir de antemão algumas metas ou objetivos.

Eu concordava com os pressupostos de Rogers, mas eu era um estudante de filosofia. Eu precisava articular como e por que esses pressupostos estavam certos. Eu não podia me satisfazer meramente com a idéia da auto-atualização como um princípio. Eu queria demonstrá-la. Não é cada organismo vivo adaptável, o que significa que ele se mantém integrado e preserva sua vida? Eu argumentava na época (e ainda atualmente) que se não o fosse, tenderia a se desintegrar.

Tomemos o exemplo das tendências socialmente positivas que Rogers via em todas as pessoas. Isso poderia soar como mero otimismo. Mas ser humano só é possível em interação com os demais. Se a vida vem de dentro, e viver é interação, então ela obviamente possui tendências de interação "social" que se originam internamente. Esse é um senso do "social" muito diferente do que pensar que os valores e modos de viver são "impostos" ao indivíduo pela sociedade.

A necessidade de novos conceitos

Para articular nossos pressupostos de maneira que outros possam compreender-los é necessário ajustar o significado de todas as principais palavras que utilizamos. Por exemplo, se há conhecimento organísmico e avaliação interna, então a palavra "corpo" já não pode mais significar apenas uma máquina; ela tem que significar algo inerentemente interativo que projeta suas ações a partir de dentro. Se o corpo é definido como uma interação inerente (no sentido de que segue o fluxo da vida), implica afirmar que quando esse corpo tem uma sensação de si próprio, obviamente contém uma grande quantidade de informações sobre sua situação. Nosso conhecimento experiencial não é uma recepção misteriosa de algo externo. Não conhecemos o mundo principalmente a partir dos nossos cinco sentidos externos, mas muito mais basicamente através da própria sensação corporal, uma vez que o corpo consiste numa interação com seu meio ambiente.

Redefinir as palavras, para que estas deixem de ser obstáculos e se tornem pontes, de modo a permitir que novos conhecimentos penetrem e modifiquem outras áreas, é precisamente a função da teoria. A prática da maioria dos terapeutas mudou muito em nossa direção. O movimento humanista tem sido também um fator de aprofundamento da sociedade como um todo, hoje muito mais aberta à experiência direta do que naqueles dias. Mas a psicologia humanista não tem obtido sucesso em comunicar sua base teórica e filosófica para o resto da psicologia e para outros intelectuais das ciências sociais e outras disciplinas que promulgam os pressupostos básicos da sociedade. Cinqüenta anos depois, os velhos pressupostos ainda sustentam a maioria dos conceitos teóricos das ciências sociais (Gendlin, 1987).

A falta de comunicação teórica e filosófica pode se dever ao fato de que se requer um longo tempo e muitas pessoas para desenvolver e comunicar um vocabulário completamente novo. Não tem havido uma avaliação suficiente do tamanho desta tarefa e nem atenção e formação em teoria entre nós. Certamente o que precisamos é de um tipo diferente de teoria, uma que possa acessar e usar a experiência viva juntamente com os conceitos (Gendlin, 1961, 1962 & 1992). Em uma teoria como tal, os conceitos não deveriam sequer fazer sentido se não gerassem também as experiências relevantes no leitor.

É da natureza da psicologia humanista que isso dependa primeiramente da experiência, e somente então do pensamento posterior - que surge a partir das experiências. Dado que a sabedoria experiencial vem em primeiro lugar, podemos viver e trabalhar apenas com ela, e sendo assim, a teoria pode parecer desnecessária. Será essa a razão pela qual poucos psicólogos humanistas tenham se dedicado a desenvolver teoria? Talvez essa seja uma razão pela qual eu tenha me sentido solitário em meu trabalho teórico, ainda que tenha alcançado muita atenção com a Focalização e a prática da terapia.

O que Rogers descobriu poderia ser observado por qualquer um, segundo ele próprio afirmava, desde que se procure responder às pessoas com a escuta reflexiva que ele ensinava. Ele pedia às pessoas para adotarem seu método a título de "hipótese operacional". Não era necessário concordar com ele, tampouco acreditar em seus pressupostos. O que se pedia era apenas para tentar responder ao outro escutando e devolvendo o crucial do que a pessoa tentou comunicar. Se alguém fizesse apenas isso, logo descobriria todo o resto por si só. Assim o é. Se você apenas ouvir, sem impor nada, então o que se abre nas pessoas diante de você é muito belo e intricado. É também uma malha sempre nova, única e complexa de vivências e significados e que não está na superfície. Eles repousam sempre alguns passos além dos sentimentos e significados já elaborados e batidos que uma pessoa geralmente costuma pensar e sentir.  Quando esta complexidade e estes significados mais profundos se abrem, eles são novos, frescos não apenas para o terapeuta, mas também para a pessoa.

Uma pessoa diz alguma coisa; outra responde devolvendo-lhe a essência do que foi dito. A pessoa ouve o que foi refletido. Não era exatamente o que ela quis dizer. A pessoa corrige a resposta. O terapeuta aceita a correção (o que é claro, já que o que se pretende captar é o significado do cliente). O cliente ouve novamente. Sim, agora está praticamente correto, a não ser por um pequeno detalhe que não tinha sido captado. Isso também é dito, ouvido e reformulado. Então o cliente diz a próxima coisa, que novamente é devolvida e ajustada, até que o cliente se sinta ouvido. Pode haver outra mensagem e mais outra, mas logo aquele fluxo termina. Agora parece que não há mais nada a ser dito. Um silêncio surge.

O que o cliente tinha consigo, esperando por ser dito, agora foi. Onde antes havia um bloqueio - uma espera por poder dizer - há agora um espaço. É claro que resta mais por se dizer; o problema não está resolvido. A pessoa sente esse desconforto de algo ainda sem resolução, mas agora não há palavras prontas, não há questões já formuladas a respeito do problema aguardando atenção. O cliente sente (sabe, tem, é) esse silencioso limiar de algo mais.

Da atenção silenciosa a esse limiar, a próxima coisa a ser dita surgirá. É neste espaço que a próxima coisa surgirá - algo mais profundo, algo que a pessoa nunca ouviu ou sentiu antes. Aa medida em que cada passo surge após o outro de um nível mais profundo, uma pessoa vai descobrindo sua própria complexidade, seus próprios erros e seu bom senso. Sem este processo é óbvio que as pessoas permanecem praticamente desconhecidas de si próprias - e certamente de nós. "Você está com raiva para encobrir o medo? Ou você está medo da raiva por ela parecer tão grande? Como é isso?". Sem penetrar esse limiar, sem de fato verificar se é uma coisa ou outra, ou se é algo ainda mais complexo, como podemos descobrir o seu significado? Conhecendo esse processo de passos que emergem desse limiar, como poderíamos querer impor a uma pessoa um conjunto de conceitos e julgamentos simplistas e gerais?

Quando uma de minhas primeiras clientes, uma mulher lésbica, terminou um processo terapêutico bem sucedido depois de dois anos, me deu um beijo no rosto e disse algo sobre como tinha sido incomum encontrar alguém que pudesse entender e não mal interpretar uma pessoa lésbica. Naquela época isso não tinha me parecido tão especial, pois eu não estava pensando em termos de preconceitos contra um grupo específico. A formação que obtive com Rogers tornou óbvio para mim que eu sabia muito pouco a respeito da sexualidade ou dos significados da vida de qualquer outra pessoa, a menos que fossem explorados a partir de dentro. Para que a terapia aconteça, eu preciso permitir que qualquer pessoa me ensine sobre sua complexidade, seu mundo, sobre sua revelação passo a passo de como isso é. Isso me parecia óbvio (e ainda parece). Não é óbvio?

Alguém treinado por Rogers não necessitava nenhum insight ou ideologia especial para ouvir e tentar compreender uma pessoa homossexual ou membro de qualquer outro específico, pois era óbvio que todo indivíduo deve ensinar seu terapeuta. A vida íntima de nenhuma pessoa pode ser conhecida, nem por ela própria, sem seguir esses pequenos passos, que vêm de um nível mais profundo, daquele limiar o qual a pessoa de início não sabia como acessar. Isso me parece tão óbvio que fez com que eu levasse anos para perceber o quanto essa concepção ainda não foi assimilada em nosso campo.

A escuta reflexiva foi promulgada como uma técnica fácil de se aprender e como um método completo de terapia, como tudo o que alguém precisa. De fato, um processo terapêutico profundo se desenvolve a partir dessa escuta ativa, quando ela é genuína. Mas isso não consiste um método completo por si só.

Mais da metade dos clientes não sabia onde, em si próprios, poderiam encontrar a sabedoria organísmica e avaliação interna. Fred Zimring e eu coletamos o que nós chamamos de “dimensões da experienciação” (Gendlin e Zimring, 1955), o que veio a se tornar a “Escala de Processo” de Rogers e, posteriormente, a “Escala de Experienciação” (do Instituto de Psiquiatria da Universidade de Winsconsin). Estas escalas levaram à descoberta de que os clientes bem sucedidos em terapia eram capazes de entrar em contato direto com a própria experienciação desde o início da terapia, enquanto que aqueles cujos resultados eram negativos nunca conseguiram isso. Já que a terapia não mostrava aos clientes como entrar em contato com a sua experienciação, desenvolvi o que hoje chamamos de “Focalização” (Focusing): um método sistemático e passível de ser ensinado para ajudar as pessoas a descobrirem isso em si próprias (Gendlin, 1981).

De forma muito acertada, a maioria dos terapeutas utilizam não apenas a escuta e a Focalização, mas também quaisquer outros tipos de respostas úteis. (Seja o que for que alguém utilize, deve escutar seu cliente imediatamente depois). Não se trata de um método exclusivo o que destaco aqui. Ao contrário, trata-se de uma porta para as bases do Humanismo - não como crenças a se ter a priori - mas como acontecimentos diretos sobre os quais então podemos refletir a respeito. Permitamo-nos pensar um pouco mais sobre esses acontecimentos agora.

Ao refletir uma resposta, o terapeuta acompanha a pessoa em cada passo e nos silêncios intermediários que permitem que os próximos passos possam surgir. Não cabe ao terapeuta decidir quais percepções e sentimentos do cliente são válidos. Em lugar disso, a validade destes repousa na descoberta interior que cada pequeno passo que surge torna significativa. Com tais passos, algo se movimenta e ganha vida no cliente, mais e mais. Após uma série de passos como esses, logo no início da terapia, uma cliente, mobilizada em seu íntimo sente as lágrimas chegando quando diz: “Oh... eu faço fazer sentido!”.

Há também uma honestidade e uma sinceridade que são gradualmente descobertas a partir dali. As piores experiências são sentidas como mais ricas e melhores do que o bloqueio e a pretensão de que não há medo. Pode-se suspirar com a sensação de uma continuidade interior. A verdade pode ser validada de modo muito direto, por mais estranha que essa afirmação possa parecer. O cliente diz: “Isso é assim... puxa... (suspira com alívio)... sinto que isso é real, é direto, é claro”.

Dentro de cada corpo humano há um “eu” que te olha detrás dos olhos. Esse “eu” se debate com todas as coisas da vida, luta por encontrar algo de valor e deseja se expandir, cuidado pelos outros. Se tivermos qualquer objetivo, que não servir a esse “eu”, que outro poderia ser? Vender um carro a uma pessoa? Conseguir adeptos a um grupo ideológico do qual façamos parte? Moldar as pessoas para que se adaptem a alguma função social? Em algumas situações é isso que queremos, mas não em terapia. Em terapia não consigo imaginar nenhum outro objetivo senão o de olhar para esse “eu” interno, responder a ele, acompanhar essa pessoa e seguir cada um dos seus esforços em fazer / descobrir algo positivo que esteja em continuidade com seu interior. E, com efeito, se esse limiar interno é perseguido, assim como os pequenos passos, o que está em continuidade com o interior sempre acaba se tornando profundamente positivo, mesmo se iniciado a partir de um projeto simplório.

Nós precisamos mostrar aos nossos colegas esse “eu”, esse limiar, os passos que vêm a partir de dentro e sua complexidade inerente. Não podemos fazer isso através de termos dos conceitos correntes de corpos mecânicos e pessoas socialmente construídas. Mas podemos re-conceber os conceitos básicos da natureza e dos corpos vivos. Eu fiz um pouco disso (Gendlin 1962, 1973, 1979, 1991 e 1992). Podemos usar um novo tipo de conceito para pensar de maneira mais verdadeira e ampla sobre nossas observações a respeito da pessoa humana.

Grupos de Encontro

O Movimento dos Grupos de Encontro foi além da terapia e contribuiu muito com o “tecido” da sociedade. Faço, a seguir, algumas observações a respeito da história desse movimento.

Os pioneiros dos experimentos a respeito de processos grupais pertenciam ao Laboratório Nacional de Treinamento (National Training Laboratories - NTL) em Bethel, Maine e ao Instituto Tavistock, na Inglaterra. Certas “leis” aparentes do processo grupal foram descobertas lá. Algumas destas ainda se mantinham quando conduzíamos grupos com nossas novas atitudes e pressupostos e outras não. Com nossa abordagem surgiu um processo grupal muito diferente e um tanto explosivo.

Em Winsconsin, entre 1959 e 1962 fomos a várias cidades no estado oferecendo algo estranho e, naquela época, pouco definido: um grupo cuja participação era bastante aberta e que duraria muitas horas ou dias. A excitação gerada por esses grupos era, por vezes, notícia nos jornais. Nós tínhamos criado / descoberto os Grupos de Encontro. Depois descobri que muitos outros estavam fazendo coisas semelhantes por todo o país.

O movimento dos Grupos de Encontro, e tudo aquilo que conduziu a ele, sem dúvida mudou a nossa sociedade. Hoje ouvimos pessoas comuns falarem de experiências interiores e relações interpessoais de uma maneira que só psicólogos e clientes próximos ao final da terapia falavam antes. Multidões de pessoas vieram a entrar em contato com seus sentimentos sem nunca terem sabido antes como se fazia. Isso tudo tornou possíveis muitas outras mudanças.

A necessidade de Novas Instituições

Após alguns anos nós percebemos que tais grupos não tinham como continuar. Agora é bem sabido que cada novo grupo passa por uma explosiva descoberta de riqueza interior. As pessoas descobrem que a sua experiência interior não é, de forma alguma, apenas o que os relatos e categorias comuns partilham. É muito mais, muito do fundo deles próprios, abrindo um mundo novo de complexidade humana. Depois disso, uma pessoa necessita viver de forma diferente. Mas e agora?

O movimento dos Grupos de Encontro diminuiu e morreu em torno do nosso fracasso em construir padrões sociais institucionais no qual uma pessoa poderia continuar a viver neste (e com este) novo mundo de complexidade humana interior. As pessoas vinham a cada grupo subseqüente esperando continuar a intensidade da vez anterior; elas precisavam viver um pouco mais do nível de intensidade que desenvolveram em outro grupo no fim de semana anterior. Em vez disso, com gente nova era preciso começar tudo de novo. As pessoas voltavam mais e mais vezes buscando uma espécie de continuação, uma vida nova, agora que esta mudança interna tinha ocorrido. Mas cada grupo teria que começar novamente do começo. Algumas pessoas - as novas no processo - tinham essa mudança usual, mas aquelas que já a tinham tido antes podiam apenas fingir tê-la novamente. Depois de muitos esforços, ficavam frustradas.

O movimento dos Grupos de Encontro alimentava-se de pessoas novas, mas não desenvolveu nenhuma continuação, nenhum padrão de reunião ou associação que pudesse se tornar parte da malha social.

Naqueles dias eu estava (e ainda estou) cheio de idéias meio lapidadas para novas instituições sociais nas quais alguém pudesse viver essa mudança bem conhecida de complexidade interior, durante e depois. Como as instituições poderiam mudar de forma a dar espaço para a intrincada experiência pessoal e até mesmo dar a ela um papel essencial em nossa rotina? O casamento e o papel feminino mudaram nesse sentido, mas os negócios, as escolas e hospitais não. No campo dos negócios, deseja-se nossa abertura experiencial para a criatividade, mas apenas nos limites do controle hierárquico. Os médicos tratam a sua perna e ignoram que você esteja anexado a ela. Neste ano há um projeto de dois milhões de dólares em um hospital para descobrir se o processo de cura é mais eficaz quando os pacientes têm o direito de preparar para si mesmos uma caneca de café! Inovações surgem, mas são logo suprimidas. Alas experimentais em hospitais psiquiátricos duram cerca de um ano. Escolas inovadoras como as universidades sem muros descobrem que seus graduados são rejeitados pelos órgãos de licenciatura. Terei mais a dizer a respeito de licenciatura. Gostaria, antes, de mencionar nossas próprias inovações institucionais.

Em 1967 nós desenvolvemos o CHANGES, um grupo que continua até hoje, por cerca de vinte e cinco anos e tem numerosas ramificações. As pessoas se engajam em qualquer processo psicológico útil que já conheçamos ou qualquer outro que alguém possa nos ensinar. O treinamento os capacita a envolverem-se com sucesso nesses processos, quaisquer que sejam. Enquanto outras redes praticam apenas uma habilidade, nós damos as boas vindas a todas. O CHANGES também se apóia em duas descobertas organizacionais que cedo fizemos, com respeito ao tipo destrutivo de processo grupal:

A)  É vital que as reuniões de negócios aconteçam em um lugar e momento diferentes daqueles que são nosso principal assunto, os processos pessoais. Com essa separação, um pequeno grupo motivado cuida tranqüilamente de toda a gestão da organização. Os outros são convidados a participar das reuniões de negócios da organização, mas geralmente não o fazem se não tiverem algo específico a tratar. Desta forma não surge o tipo de processo grupal que desmembrou a maioria das organizações experiencialmente abertas.

B)  A outra inovação é que em nosso principal encontro interpessoal há apenas apoio. Nós não nos embrenhamos em um processo grupal mutuamente danoso, no qual as pessoas despejam emoções cruas umas nas outras. Em outro ambiente, duas pessoas em conflito podem contar com uma terceira neutra, a ouvir com tranqüilidade a cada uma. Alguns conflitos podem permanecer não resolvidos, mas o espaço do grupo permanece protegido. Sempre há alguém que se disponha a ouvir refletiva e cuidadosamente a qualquer pessoa que não esteja sendo ouvida pelo grupo. Nós ouvimos as pessoas uma de cada vez.

Bem recentemente nós voltamos a nos interessar pelos processos grupais, mas estamos aprendendo quantas pré-condições são necessárias antes que um processo positivo de grupo possa acontecer.

Mais tarde desenvolvemos o PARTNERSHIP (duas pessoas dividindo ao meio seu tempo, alternando entre ouvir e ser ouvido). Durante as reuniões do CHANGES, isso acontecia o tempo todo, mas agora estamos arranjando um parceiro mais ou menos regular para cada pessoa, à parte das reuniões. Os parceiros dividem duas horas ou o tempo que tiverem. No momento de uma pessoa se faz tudo o que puder ser útil para ela. Para que isso seja possível, o parceiro pode lhe ensinar qualquer habilidade. Ouvir, focalizar, e outros processos psicológicos são comuns, ou uma pessoa pode mostrar fotos ao seu parceiro ou querer discutir sobre algum tema em específico. Há liberdade para usarmos nosso próprio tempo.

Esses dois padrões sócio-institucionais foram longe o suficiente (assim como duraram o suficiente) para que sejam vistos com esperança. Ambos foram edificados com base na escuta e na Focalização, mas sempre incluíram todos os outros métodos e modos de trabalhar que os participantes puderam trazer (Gendlin, 1981 e 1987). O Instituto de Focalização de Chicago tem mais informações sobre ambos.

A falta de novos padrões sociais torna nebuloso o futuro da Psicologia Humanista de hoje. Juntamente com a falta de teoria para comunicação com uma comunidade intelectual mais ampla, a falta de incorporação em instituições sociais é uma segunda faceta do problema que enfrentamos.

A falta de ambientes para Formação Humanista

Se por “Humanistas” nos referimos aos terapeutas da terceira força (nem psicanalistas e nem behavioristas), então somos hoje 80 ou 90 por cento de todos os psicoterapeutas do país[2]. É claro que há muitas definições mais estreitas, mas estamos muito relacionados com a dimensão da terceira força e isso, certamente, é algo para celebrarmos em nosso aniversário.

Por outro lado, jovens graduados tendem agora a ser mais rígidos. Atitudes da terceira força não são o que os programas em psicologia clínica ensinam. Há muito poucos programas e ambientes orientados à formação humanista. Ao que parece, os psicólogos humanistas não quiseram organizá-los. Precisamos conhecer e ajudar a expandir os programas que já existem e criar muitos mais onde possamos.

Atualmente a maioria dos estudantes em clínica com inclinação humanista precisam suportar programas que são antagônicos às seus compromissos básicos. Eles vivem como pessoas marginais, “underground”. Muitos desistem da graduação.  Quanto mais humanamente sensíveis as suas atitudes são, menos chances têm de durar. Não têm problema em manejar todo o material irrelevante. Podem, também, aprender muito com as abordagens psicanalítica e comportamental. O problema se refere às atitudes inerentes na maioria dos programas de formação. Geralmente é perigoso mostrar seus sentimentos (uma pessoa pode ser descartada por estar “instável”). Distanciamento clínico é requerido. Os seres humanos são tratados como objetos sobre os quais os estudantes são exigidos a impor padrões alienados. Poucos conseguem fingir fazer isso bem. O tipo de estudante que viria a se tornar um Psicólogo Humanista, se admitido, com freqüência abandona os estudos.

Não estamos nos reproduzindo

A formação é a principal maneira de um grupo de profissionais reproduzir seu modelo na próxima geração. Uma vez que tanta formação oficial é desenvolvida por outros com uma configuração hostil, é duvidoso se a Psicologia Humanista será capaz de continuar a existir nas gerações futuras. A ausência relativa de programas de formação é o terceiro aspecto do problema que estou apontando.

Inovação e diversidade em terapia estão se tornando ilegais

Há também, hoje em dia, uma nova tendência em mudar drasticamente as condições para a prática profissional que permaneciam até o momento. Refiro-me à licença para os psicoterapeutas. Em muitos estados já existem novas leis que proíbem novas descobertas e novas atitudes em formação clínica. A Psicologia, o Serviço Social, Aconselhamento e Práticas Familiares estão sendo legalmente obrigados a enrijecer sua formação e limita-la aos velhos conteúdos e velhas atitudes incorporadas nesses conteúdos. Eu vivencio isso de forma mais dolorosa quando participo de discussões de reformulação dos programas clínicos. Anos atrás debatíamos a respeito do que melhor formaria um terapeuta. Hoje a discussão começa com os requerimentos para a licenciatura, e esses passam a ser a maior preocupação em todas as etapas. Se nosso programa não parecer ortodoxo, aos nossos graduados não será permitido praticar a profissão.

O Comitê Estadual de Licenças exige uma longa lista de conteúdos tradicionais da psicologia, sem especificar quanto deseja de cada um. Três disciplinas poderiam cobrir todos esses tópicos ou eles exigiriam uma disciplina para cada um? Isso não deixaria abertura alguma. Nós sentamos para desenhar um novo programa, mas descobrimos que poderíamos oferecer apenas duas ou três eletivas. Praticamente o programa todo consiste do velho (e bastante irrelevante) conteúdo da psicologia ortodoxa. Toda a literatura deve ser abarcada em um curso. Qualquer coisa além e, certamente, qualquer formação inovadora aumenta a chance de não haver permissão para a prática profissional dos nossos graduados.

Por alguns anos eu trabalhei no Comitê de Licenças do meu Estado, e lutei muito por especificidade. Quantas disciplinas para este material velho e irrelevante? Cinco? Sete? Nove? Mas comitês como esses apreciam a indefinição para ter o poder de aprovar e desaprovar programas. Uma vez que o tempo em que eles podem ficar no comitê também é ilimitado, eles se tornam identificados com seu poder.

Eles tentam sinceramente ser neutros em reação à orientação. Se a Psicologia Humanista pudesse formular a si própria, então - em princípio - seus requisitos poderiam ser incluídos. Em princípio, mas não de fato, pois: quais seriam os nossos requisitos de curso? Nós iríamos querer incluir uma capacidade filosófica de questionar conceitos estabelecidos e formular outros novos. Nós iríamos incluir discussões de atitudes de terapia e assuntos como literatura, poesia e outras criações de pessoas sensíveis. Nós iríamos levar os estudantes a, dentro de si mesmos, praticar e conhecer os processos terapêuticos e a tornarem-se pessoas mais sensíveis. Muitos clientes já são mais sensíveis e sofridos do que seus terapeutas. É um absurdo que a lei requeira terapeutas rudes a respeito do espírito humano, pessoalmente defendidos, escondidos, desconhecidos de si mesmos, legalmente forçados a tratar as pessoas inteiramente em termos de atitudes mecânicas e vocabulários diagnósticos (os quais, além do mais, não enfrentam simples pesquisa). Mas os cursos que desejamos não seriam reconhecidos como psicologia pelo comitê do qual fiz parte.

Mas algo ainda mais importante está sendo proscrito, algo que ainda não podemos ver e talvez jamais vejamos. É o que psicólogos inovadores de qualquer tipo poderiam descobrir e formular nos anos futuros (coisas que o meu comitê então talvez respeitaria e aceitaria), algo que nunca vai emergir e nunca será formulado, pois o campo da psicoterapia terá se tornado uniforme e marchará como uma profissão sem formação humanizada, assim como tantos campos de especialização já se tornaram. Então, novas abordagens não poderão ser promulgadas. Não teremos a chance de formular um vocabulário humanístico mais específico e relevante para a nossa prática.

É claro que devem existir sansões contra práticas antiéticas e essa é uma esfera própria da lei. Precisamos de leis simples contra práticas antiéticas e não de uma camisa de força para todos. E se todos têm que ser licenciados, não é necessário misturar requisitos educacionais com sansões éticas. A freqüência de práticas antiéticas é a mesma no nível de graduados e doutores. Isso não é razão suficiente para dar controle de toda a nossa formação para um órgão governamental.

Por trás desta licença está a irresistível força do dinheiro. Pagamentos dos convênios são agora essenciais para a maioria dos nossos clientes. A psiquiatria luta por conseguir uma fatia de cada reembolso. Os psicólogos querem se fortalecer e parecer fortes nesta batalha com os psiquiatras. Aqueles preocupados com essa batalha têm pouco tempo para pensar a respeito da nossa necessidade de inovar o serviço e a formação. Se pudéssemos fazer-los pensar a respeito, tais necessidades não seriam difíceis de reconciliar. Podemos, ao menos, reclamar um limite ao número de disciplinas nas quais a lei determina o conteúdo. Isso livraria o resto do programa.

Em uma democracia parece difícil determinar a formação de todos através do julgamento de seis ou sete pessoas nomeadas pelo governo. Com efeito, é provavelmente inconstitucional. Desafios jurídicos estão por vir. Mas os tribunais sentem que devem deixar a formação a cargo dos profissionais de cada campo. Enquanto a uniformidade das leis de licenciatura for um desejo da APA e, enquanto a APA for praticamente a única voz oficial no campo, os desafios jurídicos em relação à licenciatura falharão. Podemos ter a esperança de deter essa tendência apenas se pudermos organizar um grupo dentro da própria APA para defender a diversidade educacional e a inovação, e para mostrar que os profissionais não estão em unanimidade em relação a esses temas. Assim o tribunal poderia mudar essas leis.

A tendência não se restringe somente à licenciatura, mas é muito pior: refere-se a tornar ilegal qualquer prática não licenciada. Isso é o que a APA vocifera em todos os estados. Uma lei que torna ilegais mesmo as práticas clínicas não remuneradas sem uma licença específica já estava a ponto de ser aprovada em Illinois. Foi parada apenas pelo veto do nosso Governador.

No futuro, pessoas como Rogers e Maslow não estarão habilitadas a formar psicólogos em um novo modo, pois a lei proibirá a prática desses estudantes. Essa é uma grande mudança em nosso campo. Se não for revertida, a continuação da Psicologia Humanista é duvidosa.

Precisamos apreciar o quanto nós já alcançamos e o fato de que, no momento, ainda estamos em uma boa posição para salvaguardar o futuro.

Referências Bibliográficas

Gendlin, E. T. and Zimring, F. (1955). The qualities or dimensions of experiencing, and their change. Counseling Center Discussion Papers. Chicago: University of Chicago Library.

Gendlin, E. T. (1962). Experiencing and the creation of meaning. New York: The Free Press, Macmillan.

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[1] Nota do tradutor: Gendlin refere-se aos demais autores da revista na qual este artigo foi publicado.

[2] Nota do tradutor: os dados referem-se aos EUA, em 1992.


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